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Acabei de ver um tópico de discussão interessante — sobre as suspeitas acerca da verdadeira identidade do criador do Bitcoin. Recentemente, um documentário da HBO afirmou ter desvendado o mistério da identidade de Satoshi Nakamoto, embora quem seja exatamente ainda gere controvérsia, mas a pessoa mais bem colocada na lista de previsão do site é Len Sassaman, muito à frente dos demais candidatos. Esse nome pode ser desconhecido para muitos, mas sua história vale a pena conhecer.
Falando de Len Sassaman, esse cara era um verdadeiro punk de criptografia — inteligente, destemido, idealista. Ele dedicou toda a sua vida à proteção da liberdade individual através da criptografia, participou do desenvolvimento do PGP e de tecnologias de privacidade de código aberto, e também estudou redes P2P sob a orientação do pai da moeda digital, David Chaum. Na comunidade hacker, ele é uma figura lendária, tendo cruzado com muitos grandes nomes da história da segurança da informação e das criptomoedas.
Mas em 3 de julho de 2011, aos apenas 31 anos, Len Sassaman escolheu partir, sob o peso de uma depressão prolongada e de transtornos neurológicos funcionais. Coincidência ou não, o momento de sua morte quase coincide com o desaparecimento de Satoshi Nakamoto. Dois meses antes, Satoshi enviou sua última mensagem: "Eu me mudei para outras coisas, talvez nunca mais volte." Depois disso, ficou completamente silencioso, deixando um monte de código incompleto, debates acalorados sobre a visão do Bitcoin, e cerca de 640 bilhões de dólares em BTC que permanecem intocados até hoje.
Perdemos muitos hackers que se suicidaram por causa da depressão. Aaron Swartz, Gene Kan, Ilya Zhitomirskiy, James Dolan… todos vítimas de uma epidemia de depressão que assola o mundo da tecnologia. Imagine só: se o criador do Bitcoin tivesse desaparecido antes de completar sua obra, como seria?
Sobre por que Len Sassaman é considerado um dos principais candidatos a Satoshi Nakamoto, é preciso entender seu background técnico. Esse cara tinha uma profunda formação em criptografia, infraestrutura de chaves públicas, design de redes P2P, arquitetura de segurança prática e tecnologias de privacidade. Autodidata desde cedo, entrou na Internet Engineering Task Force aos 18 anos, responsável pelo desenvolvimento do protocolo TCP/IP — que é a base da internet e também do próprio Bitcoin.
Em 1999, mudou-se para a Bay Area, rapidamente se tornou uma figura central na comunidade punk de criptografia. Morou com Bram Cohen, criador do BitTorrent, e era ativo na lendária lista de discussão de criptografia — foi lá que Satoshi Nakamoto anunciou o Bitcoin pela primeira vez. Outros hackers lembram dele como alguém inteligente e bem-humorado, até brincando com esquilos em festas punk.
O mais importante: a contribuição de Sassaman para o desenvolvimento do PGP foi significativa. Trabalhando na Network Associates, colaborou com Hal Finney (um dos primeiros contribuintes do Bitcoin). Também participou da implementação do GNU Privacy Guard (GPG), e chegou a colaborar com o próprio criador do PGP, Phil Zimmerman, na criação de novos protocolos de criptografia. Satoshi já afirmou que desejava que o Bitcoin tivesse um papel na segurança financeira semelhante ao que a criptografia forte, como o PGP, tem na proteção de arquivos.
Outro detalhe interessante: tanto Sassaman quanto Finney foram desenvolvedores da tecnologia remailer. O que é um remailer? Um servidor que permite enviar mensagens de forma anônima ou pseudônima — uma espécie de antecessor direto do Bitcoin. Sassaman foi o principal desenvolvedor e mantenedor do Mixmaster, um tipo de remailer que tem uma arquitetura surpreendentemente semelhante à do Bitcoin — ambos usam redes P2P para transmitir dados, só que o Bitcoin transmite transações, não mensagens.
Em 2004, Sassaman conquistou seu sonho: tornou-se pesquisador e doutorando no grupo COSIC, da Universidade de Leuven, na Bélgica. Seu orientador era ninguém menos que David Chaum, considerado o “pai do dinheiro digital”. Chaum já tinha proposto o conceito de moeda criptográfica em 1983, e sua tese de 1982 descrevia todos os elementos do blockchain — exceto um. O que isso significa? Satoshi usou as ideias de Chaum, acrescentando suas próprias inovações, preenchendo a última peça do quebra-cabeça.
Na Bélgica, Sassaman focou no desenvolvimento de protocolos de privacidade com “valor prático real”. Seu projeto principal foi o Pynchon Gate — uma evolução da tecnologia de remailer, criada em parceria com Bram Cohen, capaz de realizar buscas de informações pseudônimas através de uma rede distribuída de nós, sem confiar em terceiros. Qual a relação disso com o Bitcoin? Com o aprofundar da pesquisa, Sassaman passou a se concentrar na questão do consenso bizantino — um dos maiores obstáculos das redes P2P iniciais, e fundamental para garantir a segurança e a descentralização de sistemas de criptomoedas.
Outro detalhe curioso: análises do histórico de postagens de Satoshi indicam que ele era um “coruja” europeu, geralmente ativo à noite, após o trabalho ou estudos diários. Sassaman, embora americano, usava inglês britânico — com expressões como “bloody difficult”, “flat”, “maths”, e o formato de data dd/mm/yyyy, idêntico ao estilo de Satoshi. Além disso, o bloco gênese do Bitcoin cita a manchete do “The Times” daquele dia — um jornal majoritariamente distribuído no Reino Unido e na Europa, bastante comum na academia belga.
Tecnicamente, construir o Bitcoin exige compreensão de economia, criptografia e redes P2P — e Sassaman tinha uma experiência precoce e profunda em todas essas áreas. Junto com Bram Cohen, testemunhou o auge e o declínio do MojoNation, uma das primeiras moedas digitais públicas, usando Mojo como token para uma economia P2P. Sassaman viu o colapso por hiperinflação, e Satoshi claramente aprendeu essa lição — ao criar o Bitcoin, introduziu um mecanismo de deflação embutido para garantir estabilidade.
Outro ponto: Sassaman e Roger Dingledine, criador do Tor, participaram do desenvolvimento do protocolo Mixminion, e ambos fizeram palestras na Black Hat. Em 2002, Sassaman e Bram fundaram a conferência CodeCon, focada em projetos com código realmente funcional. Em 2005, na CodeCon, Finney apresentou uma versão aprimorada do cliente BitTorrent, capaz de enviar moedas digitais P2P — considerado o “primeiro servidor transparente do mundo, promovendo um universo de servidores RPOW distribuídos e colaborativos”.
Do ponto de vista ideológico, Sassaman e Satoshi compartilhavam uma forte crença na liberdade e no conhecimento aberto. Sassaman contribuiu com muitos projetos open source, fez trabalho voluntário, e afirmou: “A busca pelo conhecimento é uma parte fundamental da humanidade. Qualquer restrição prévia é uma violação da liberdade de pensamento e consciência.” Já Satoshi optou por distribuir o Bitcoin por meio de projetos de código aberto, gratuitos, de base comunitária — uma abordagem bem diferente da rota de patentes e investimentos de Chaum, Stefan Brand e outros.
A história final é um pouco pesada: após um incidente em 2006, Sassaman começou a sofrer de crises neurológicas cada vez mais graves, incluindo crises não epilépticas e transtornos funcionais. Isso agravou uma depressão que o acompanhava desde a adolescência. Como vítima de estigmatização, ele sentia que “precisava manter uma fachada de superpoder”, e tinha medo de que sua saúde deteriorada destruísse seu trabalho e decepcionasse as pessoas que se importavam com ele. Mesmo assim, continuou trabalhando, escrevendo artigos, e nos meses antes de sua morte, chegou a dar palestras na Dartmouth College. Mas conseguiu esconder a gravidade de sua condição de quase todos.
No blockchain do Bitcoin, há uma transação que contém uma mensagem de obituário — uma homenagem mais adequada a Sassaman. Assim, ele foi eternamente gravado no sistema que talvez tenha ajudado a criar. Perdemos muitos hackers talentosos. Se Sassaman e esses pioneiros tivessem recebido o reconhecimento e o respeito que mereciam, o que poderiam ter feito pelo mundo? Essa é uma reflexão que fica.